Casta A Casta | Cercial: Acidez, Precisão e Tempo

19 dezembro 2025

Em Dezembro celebramos a Cercial — uma casta enigmática, exigente e profundamente atual.

A Cercial é uma das castas brancas mais intrigantes do panorama vitivinícola português. Presente em várias regiões e conhecida por diferentes nomes — Cercial do Douro e do Dão, Cerceal da Bairrada ou Sercial da Madeira (também chamada Esgana Cão no continente) — partilha um traço comum que a define acima de tudo: uma acidez naturalmente elevada, firme e persistente.

De maturação tardia e produção generosa, a Cercial exige atenção na vinha para alcançar equilíbrio entre açúcar e acidez. Quando bem conduzida, revela-se uma casta de enorme interesse enológico, sobretudo em contextos onde a frescura é um bem precioso — algo cada vez mais valorizado num cenário de alterações climáticas.

Aromaticamente, o seu registo é contido e elegante. Surgem notas de citrinos como limão e toranja, maçã verde e ameixa verde, acompanhadas por pétalas brancas e delicadas nuances vegetais e minerais. Não é uma casta exuberante, mas ganha profundidade e complexidade com o tempo em garrafa. A fermentação ou estágio em barrica usada pode acrescentar subtis notas de tosta fina, respeitando sempre o seu perfil contido.

Na boca, a Cercial mostra aquilo que melhor sabe fazer: acidez viva e incisiva, textura elegante e um final longo e refrescante. São vinhos que pedem tempo, mesa e atenção — ideais para acompanhar peixes, mariscos ou queijos de pasta mole.

Tradicionalmente usada em lote com castas mais aromáticas e menos ácidas, como a Malvasia Fina ou o Fernão Pires, a Cercial afirma-se hoje como uma casta de enorme relevância técnica. Discreta no aroma, brilhante na estrutura, é uma verdadeira aliada da longevidade e da precisão nos vinhos brancos.